"O psicólogo que não estiver a serviço do sistema político autoritário no qual vive e trabalha deve ser, antes de tudo, um herético. No fundo, suas teorias e, de fato, suas práticas terapêuticas, se funcionam é porque são heréticas. Afinal, só a atitude herética posta em prática pela ciência revolucionária marginal pode "curar" a "doença" autoritária institucional e oficializada.
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Assumindo pois, publicamente, ser um herege, quero enumerar pelo menos algumas das verdades reveladas e/ou assumidas pelos poderes de meu tempo e contra as quais me insurjo. Mesmo que seja em termos bem teóricos e gerais, o leitor já percebeu que, no Brasil, em certos ambientes intelectuais é extrema e imperdoavelmente herético negar-se qualquer valor e condenar igualmente, ao mesmo tempo, tanto o Marxismo quanto a Psicanálise.
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Outra atitude considerada herética que venho praticando é ridicularizar e condenar a Democracia, como a prostituta respeitosa que herdamos dos gregos, mas que já recebemos contaminada por sua vocação aristocrática e por seu autoritarismo imperialista.
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Denunciar e combater a Sexologia e o sexologismo, derivados tanto de Freud quanto de Reich, não importa, é heresia da grossa entre os psicólogos burgueses e seus clientes.
Não conheço nenhum problema sexual que não possa ser diagnosticado e tratado pelos urologistas, ginecologistas e neurologistas. Ou seja, considero orgânicas e funcionais as possíveis dificuldades sexuais que homens e mulheres costumam apresentar. Todos os aspectos psicológicos, emocionais e comportamentais que as pessoas venham a apresentar relacionados à função sexual, trazendo, inclusive freqüentes distúrbios na ereção do homem, no orgasmo em homens e mulheres, na homossexualidade em ambos também, além de outras dificuldades menos freqüentes, para mim são causados por um bloqueio à liberdade pessoal e social das pessoas. Esse bloqueio é sempre de natureza sócio-política, geralmente estabelecida pela família, através de uma educação autoritária, machista e religiosa. Assim, se para mim o diagnóstico já está feito, a terapia se impõe: desbloquear a liberdade pessoal e social da pessoa em todos os campos de sua existência, de modo que, natural e automaticamente, sua sexualidade se normalize, seja lá qual for a dificuldade que estiver apresentando.
A ejaculação precoce e a impotência no homem, bem como o vaginismo, a dificuldade ou a ausência do orgasmo na mulher, são indicações positivas e não negativas sobre a saúde da pessoa em questão, pois esses sintomas alarmantes estão apenas avisando a seu portador de que necessita tomar providências urgentes quanto às suas opções básicas de vida. Essas pessoas vão reclamar ao psicólogo ou ao médico dificuldades para realizar o prazer sexual, mas nada lhe dizem (e parecem conformadas) sobre a falta de interesse, de amor e de tesão por seus companheiros de cama; ou ocultam sua falta de interesse, de vocação e de tesão pelo trabalho que realizam; ou nada relatam sobre a violência (pela dor física e pelo medo) de que foram vítimas na infância e adolescência, quando sexo e moral eram o alvo, mas no fundo, o que se visava com esse tipo de pedagogia era domar, limitar e controlar a sua liberdade, ou seja, a sua independência, a sua autonomia e a sua espontaneidade. Mesmo que tudo isso tenha sido refletido, discutido e analisado, o cliente espera que o sexólogo consiga eliminar a sintomatologia sexual sem, entretanto, ser convencido a lutar por sua liberdade social e política.
Não é uma incoerência estúpida reclamar e um cinismo irresponsável ouvir reclamações sobre a falta de prazer sexual num corpo e numa pessoa para a qual tudo o mais na vida funciona sem nenhum prazer? Costumo dizer que, a esse respeito, paus e xoxotas apresentam mais sabedoria, mais honestidade e coragem que corações e mentes. Nossos corpos sabem que o tesão de trepar é apenas uma parte dependente do tesão de viver.
Temos observado na Somaterapia que, mesmo sem prestar atenção às queixas sobre os sintomas sexuais que nossos clientes apresentam logo na primeira consulta, assistimos depois, durante todo o processo terapêutico, as pessoas referirem-se a um aumento progressivo de seu tesão de viver, de criar, de produzir, de conviver, de lutar e amar sendo acompanhado por surtos súbitos e fantásticos de interesse e prazer sexuais. Ao fim da terapia, aqueles que conseguiram, realmente, tornar-se livre (aqueles que passaram a viver o mais possível em função de sua originalidade única) contam com surpresa que sua sexualidade mudou (até pra homossexualidade, quando o "problema" era esse), ocorrendo o funcionamento sexual e a realização de seu prazer orgástico de forma sempre mais intensa, mais bela, mais livre e, às vezes, dizem, de forma completa.
Cobrar de si mesmo ou dos parceiros uma sexualidade feliz e completa, significa estar cometendo uma heresia insuportável: ou liberdade ou nada. Mas quem pratica essa heresia são nossos corpos, por nós."
Roberto Freire “Sem Tesão Não Há Solução”
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Atormentados do Mundo, uni-vos! O tesão dessa vida é nosso.